Usar canetas emagrecedoras sem acompanhamento médico é arriscado porque a mesma medicação que ajuda muita gente a perder peso também pode causar efeitos sérios quando a dose, a indicação ou a procedência estão erradas. E hoje, no Brasil, os três problemas aparecem juntos com cada vez mais frequência.
No consultório, tenho recebido pacientes que começaram o tratamento por conta própria, com orientação de amigos, de redes sociais ou de quem vendeu o produto. Muitos chegam com enjoo intenso, perda de massa muscular ou exames alterados, e quase sempre com a mesma dúvida: o que deu errado? Escrevo este texto para responder a essa pergunta antes que ela precise ser feita.
O que essas medicações fazem no corpo?
As chamadas canetas emagrecedoras pertencem a uma classe de medicamentos que imitam a ação do GLP-1, um hormônio que o próprio intestino produz depois das refeições. Elas aumentam a saciedade, deixam o esvaziamento do estômago mais lento e ajudam a controlar a glicose no sangue. Algumas, como a tirzepatida, também atuam sobre um segundo hormônio com função parecida.
Foram desenvolvidas inicialmente para o tratamento do diabetes tipo 2 e, com o tempo, passaram a ser indicadas também para a obesidade. Quando bem indicadas, são uma ferramenta valiosa, inclusive para a saúde do coração. O ponto é justamente esse: elas mexem com o metabolismo como um todo, e por isso precisam de quem saiba avaliar se fazem sentido para você, em que dose e por quanto tempo.
Quais são os riscos de usar sem acompanhamento?
O primeiro é a dose. Essas medicações precisam começar baixas e subir aos poucos, conforme a resposta de cada pessoa. Quem pula etapas costuma ter náusea, vômitos, diarreia ou prisão de ventre intensos, e em alguns casos chega à desidratação.
O segundo é o que se perde junto com o peso. Comendo muito pouco e sem orientação, parte do que vai embora é músculo, e não gordura. Isso deixa o metabolismo mais lento e aumenta a chance de recuperar o peso depois.
Há também riscos menos conhecidos, como a inflamação do pâncreas e a formação de cálculos na vesícula, que exigem atenção a sintomas e, às vezes, exames. E existem pessoas para quem essas medicações não são indicadas, por condições de saúde ou pelo uso de outros remédios. Sem uma avaliação antes, ninguém fica sabendo.
Por fim, existe o efeito rebote. Parar de uma hora para outra, sem um plano de alimentação e atividade física, costuma trazer o peso de volta. O tratamento não termina quando a caneta acaba.
E quando a caneta vem do Paraguai ou de origem desconhecida?
Aqui o risco muda de tamanho. O crescimento do uso dessas medicações no Brasil veio acompanhado de um mercado paralelo que só aumenta. Segundo a Receita Federal, foram apreendidas 76.112 canetas e ampolas de semaglutida e tirzepatida na fronteira com o Paraguai só no primeiro semestre de 2026, cerca de R$ 19,5 milhões em produtos. Em todo o ano de 2025, tinham sido 24 mil.
A Anvisa proíbe a entrada no Brasil de todas as marcas de tirzepatida vindas do Paraguai. A própria autoridade sanitária paraguaia já alertou que a garantia dos produtos registrados lá não vale aqui, e que há itens falsificados ou sem registro circulando até mesmo no país vizinho.
Mesmo quando o produto não é falso, o caminho até chegar a você costuma ser o problema. Essas canetas precisam de refrigeração, e muitas das apreendidas viajavam escondidas em veículos, perto de fontes de calor. Você não tem como saber o que está aplicando, nem em que concentração. Já houve, por exemplo, um caso grave de cetoacidose diabética notificado em Mato Grosso do Sul após o uso por conta própria de um produto comprado no Paraguai.
Como é um acompanhamento seguro?
Tudo começa por uma avaliação completa: histórico de saúde, medicações em uso, exames de sangue e, quando necessário, uma avaliação do coração. É isso que define se a medicação é indicada para você ou se outro caminho faz mais sentido.
Quando a indicação existe, a dose é ajustada aos poucos e os retornos servem para acompanhar a resposta, os efeitos colaterais e a composição corporal, para que a perda seja de gordura e não de músculo. Alimentação, sono e atividade física entram no plano desde o início, porque são eles que sustentam o resultado quando o tratamento chega ao fim.
No meu consultório, olho para o emagrecimento junto com a saúde do coração e do metabolismo. Perder peso é importante, mas o objetivo é chegar lá com segurança e conseguir se manter.
Antes de começar, converse comigo
Se você está pensando em usar uma caneta emagrecedora, ou já começou por conta própria, me procure antes de seguir. Uma conversa pode evitar meses de efeitos colaterais e frustração.
Atendo em Macaé, em Rio das Ostras e também por teleconsulta. Saiba mais sobre o acompanhamento em emagrecimento e saúde hormonal ou fale com a minha equipe pelo WhatsApp para agendar.
Dra. Mara Flávia, médica com especialização em Cardiologia, CRM RJ 1154141. Atua em cardiometabolismo, saúde hormonal e longevidade.
Fontes
CNN Brasil: recorde de apreensões na fronteira com o Paraguai
O Tempo: proibição da Anvisa à entrada de tirzepatida do Paraguai